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Conceição Evaristo: Escrevivência e a Literatura Que Se Recusa a Ser Silenciada

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 1946 em Belo Horizonte, Minas Gerais, e cresceu numa comunidade de favela, uma entre nove filhos criados pela mãe. Como a maioria das mulheres de sua família, trabalhou como empregada doméstica antes de concluir o ensino médio no Instituto de Educação de Minas Gerais, em 1971.

No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro pra estudar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Depois fez mestrado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), construindo uma carreira acadêmica em cima de uma vida que já tinha muito o que contar.

A história de sua família continua moldando a vida pública brasileira: sua prima de primeiro grau, Macaé Evaristo, foi nomeada Ministra dos Direitos Humanos e Cidadania do Brasil em 2024, depois de uma carreira como professora e gestora pública focada em equidade racial na educação. As duas são tão próximas que costumam ser confundidas com mãe e filha, uma trocadilho que já brincaram publicamente. Vale registrar esse detalhe porque ele diz algo sobre a família e a comunidade de onde Conceição Evaristo vem: não uma história de dificuldade passiva, mas de pessoas que seguiram construindo, ensinando e liderando.

O Que a Escrevivência Realmente Significa

Evaristo entrou na cena literária aos 44 anos, publicando na antologia Cadernos Negros em 1990, um projeto do coletivo de escritores negros Quilombhoje. Foi a partir dessa produção que ela desenvolveu a escrevivência, termo que une escrever e vivência.

Ela sempre fez questão de diferenciar o conceito da autoficção ou da escrita confessional sobre si mesma. A escrevivência, na formulação dela, não é a escrita de uma vida isolada, porque isso terminaria no indivíduo. Ela carrega a memória coletiva das mulheres negras que vieram antes dela, incluindo as que viveram e morreram escravizadas, e cujas vozes nunca foram registradas em seus próprios termos. Escrever, nesse sentido, vira uma forma de retomar a autoria de uma história que a colonização e a escravidão tentaram escrever pelas comunidades negras, de fora pra dentro.

O conceito já foi além da crítica literária. Pesquisadores da psicologia social e das ciências sociais hoje usam a escrevivência como método de produção de conhecimento a partir de histórias de vida, especialmente de mulheres negras, e não só como recurso literário.

Uma Obra Reconhecida Muito Além do Brasil

Os romances, contos e poemas de Evaristo incluem títulos como Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos d’Água, a coletânea de contos que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, um dos mais prestigiados prêmios literários do Brasil. Sua obra também recebeu o Prêmio Nicolás Guillén e o Troféu Juca Pato, além de ter sido traduzida pra vários idiomas.

Seu reconhecimento acadêmico e institucional caminha lado a lado com o literário. Ela ocupa a Cadeira 40 da Academia Mineira de Letras, e se tornou a primeira artista, e a sétima titular no geral, a ocupar a Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, parceria entre o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e o Itaú Cultural.

Casa Escrevivência: Um Lar Pro Acervo

Em 2023, Evaristo inaugurou a Casa Escrevivência Conceição Evaristo no bairro da Pequena África, no Rio de Janeiro, uma área portuária histórica ligada à memória dos africanos escravizados trazidos ao Brasil. A casa abriga sua biblioteca pessoal, manuscritos, prêmios e objetos, e também funciona como espaço para visitas escolares, palestras, lançamentos de livros e rodas de conversa centradas na literatura afro-brasileira e afro-diaspórica.

Em suas próprias palavras à Agência Brasil, um livro parado na estante não significa nada; ele só existe quando circula e é lido. A Casa Escrevivência é a resposta dela a isso: transformar um acervo particular num recurso vivo e compartilhado pra pesquisa e aprendizado comunitário, em vez de algo guardado só por preservação.

Assista e Ouça

Você pode acompanhar o trabalho da Casa Escrevivência no Instagram em @casaescrevivenciaoficial, e as atualizações da própria Conceição Evaristo em @conceicaoevaristooficial.

A Inspiração de Conceição Evaristo Pra OGA, Hoje e Amanhã

A escrevivência é, no fundo, uma reivindicação sobre quem tem o direito de narrar. Essa reivindicação está no centro do que chamamos de equidade narrativa na OGA: comunidades e pessoas sendo donas de suas próprias histórias, saberes e soluções, em vez de tê-los traduzidos, resumidos ou falados por outra pessoa.

A insistência de Evaristo em dizer que sua escrita carrega uma memória coletiva, não só pessoal, é um lembrete útil pra qualquer pessoa que trabalha em espaços de base comunitária. O objetivo não é falar em nome de uma comunidade. É construir as condições, o acesso, a linguagem e as plataformas, pra que essa comunidade possa falar, escrever e ser ouvida com sua própria voz.


OGA Vozes é uma plataforma dedicada a amplificar as vozes que importam, aquelas que desafiam narrativas estabelecidas e abrem espaço pra futuros mais justos e honestos. Conceição Evaristo pertence firmemente a esse grupo. Através do conceito que ela chama de escrevivência, ela transformou a experiência vivida das mulheres negras brasileiras, por muito tempo faladas por outros, em literatura escrita e assinada por elas mesmas. Sua obra é um lembrete de que a equidade narrativa começa com um ato simples e radical: deixar as pessoas contarem sua própria história, com suas próprias palavras.

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