
Além da Estrela do Norte: Mulheres do Sul Reescrevendo a Liberdade
Da Nigéria a Abya Yala, da Índia às favelas do Brasil, mulheres do Sul Global vêm redefinindo, há muito tempo, o que é liberdade. Não como algo que se recebe de presente, mas como algo que se retoma: das ruínas dos impérios, das margens da história e das línguas que tentaram calar em nossas mães.
Lélia Gonzalez e a amefricanidade
No Brasil, Lélia Gonzalez nos chamou de amefricanas: filhas da África e de Abya Yala, prova viva de que a tal “América Latina” nunca foi só latina. A amefricanidade nos convida a reconstruir a identidade a partir da sabedoria dos povos que sobreviveram e que seguem sonhando o mundo de novo.
Lilla Watson: solidariedade é parentesco
Lilla Watson, anciã Murri de Queensland, na Austrália, nos lembra que solidariedade não é caridade, é parentesco. Suas palavras orientam movimentos que buscam reparação, não piedade, e libertação mútua, não aplauso.
Nawal El Saadawi: o corpo como território político
No Egito, a escritora e médica feminista Nawal El Saadawi mostrou que controlar a sexualidade e o corpo das mulheres é o primeiro mecanismo de controle político e econômico. Sua coragem ajuda a enxergar como patriarcado, religião e capitalismo se entrelaçam para limitar a liberdade no Sul Global e além.
Amina Mama: resistência além dos parlamentos
Na Nigéria, a pensadora feminista Amina Mama mostra como o militarismo e o poder colonial ainda moldam a vida das mulheres, e como a resistência cresce não só nos parlamentos, mas nas cozinhas comunitárias, nos coletivos de arte e nas irmandades que atravessam fronteiras.
Julia Suryakusuma e a maternidade de Estado
Na Indonésia, a escritora e intelectual Julia Suryakusuma critica o ibuismo, a “maternidade de Estado” usada para impor controle político e patriarcal sobre o corpo e a autonomia das mulheres. Seu trabalho expõe o legado autoritário que ainda marca o Sudeste Asiático e nos desafia a buscar liberdade fora das estruturas militarizadas.
Kamla Bhasin: feminismo como canção antiga
Na Índia, a poeta e educadora Kamla Bhasin nos ensinou que o feminismo não é importação do Ocidente, e sim uma canção antiga de liberdade. Com riso e raiva, simplicidade e força, ela lembrava que o feminismo também pode ser alegre: dançar enquanto desmontamos o sistema também é um direito.
Rita Segato: ternura como resistência
Da Argentina, Rita Segato nos alerta que a violência de gênero não é assunto privado, e sim uma guerra colonial travada sobre corpos que se recusam a obedecer. Ela nos ajuda a nomear o patriarcado como estrutura de conquista e a reconhecer a ternura como forma de resistência.
Uma constelação ao redor do Sul
Juntas, essas mulheres formam uma constelação. Não em torno da Estrela do Norte, mas em torno do Sul, onde a libertação não é ponto de chegada, é direção. O trabalho delas nos pede para desaprender o que achamos que sabemos sobre liberdade, tirar o Norte do centro e escutar o Sul como quem ensina, não como quem aprende.
Na OGA Vozes, contamos essas histórias porque elas mostram que o conhecimento não é neutro e que a história pode ser reparada. Suas palavras nos convidam a pensar o ativismo como regeneração: cuidado coletivo, memória ancestral, sabedoria ecológica e empatia radical.
Para ler e ouvir mais
- Lélia Gonzalez: A revolução do pensamento e a cura anticolonial
- Lilla Watson: Sua libertação está ligada à minha
- Nawal El Saadawi: A face oculta de Eva: mulheres no mundo árabe
- Amina Mama: Além das máscaras: raça, gênero e subjetividade
- Julia Suryakusuma: Sexo, poder e sociedade: a maternidade de Estado na Indonésia
- Kamla Bhasin: O que é patriarcado?
- Rita Segato: A guerra contra as mulheres
Continue explorando em OGA Vozes.
Como levar essas vozes adiante
- Leia e compartilhe o trabalho dessas mulheres na sua comunidade e deixe que as palavras delas atravessem fronteiras.
- Escute os movimentos locais liderados por mulheres, comunidades indígenas e afrodescendentes da sua região.
- Repare em como padrões coloniais ainda moldam escolhas do dia a dia, e no que dá para desaprender.
- Dê espaço ao Sul: cite, traduza, colabore e dê crédito. Libertação não é projeto solo, é coro.
Na OGA, acreditamos que, para desafiar o que está posto, primeiro é preciso reaprender a escutar o mundo: em muitas línguas, muitas histórias e um mesmo pulso. 🌿
A OGA Vozes é uma plataforma dedicada a vozes que desafiam narrativas estabelecidas e abrem espaço para futuros mais justos. Lélia Gonzalez, Lilla Watson, Nawal El Saadawi, Amina Mama, Julia Suryakusuma, Kamla Bhasin e Rita Segato fazem parte desse grupo. Cada uma, a partir do seu território, mostrou que a liberdade não vem do Norte: ela se constrói no Sul, em coletivo, com as próprias palavras.







