Muitas vezes ouvimos uma frase que soa generosa, ética e até mesmo esperançosa:
“Somos todos humanos.”
Na melhor das hipóteses, essa afirmação reflete um desejo de dignidade, paz e pertencimento compartilhado. Muitos de nós fomos ensinados a considerá-la uma âncora moral — uma forma de rejeitar o ódio e a divisão. Mas, quando invocada para descartar conversas sobre poder, história ou danos sociais, “somos todos humanos” pode, sem querer, tornar-se uma barreira à justiça, em vez de uma ponte para ela.
Este artigo não é uma acusação. É um convite para observar mais de perto como os sistemas moldam nossas vidas e por que o cuidado intencional com vozes historicamente silenciadas é necessário e não divisivo.
A humanidade é compartilhada — o poder não é
Sim, somos todos humanos.
Mas nem todos estamos posicionados da mesma forma no mundo que a humanidade construiu.
Raça, gênero, classe, idioma e nacionalidade não são verdades biológicas — são construções sociais e políticas, criadas em contextos históricos específicos.
Como explica o sociólogo Eduardo Bonilla-Silva, a raça foi criada para organizar o trabalho, justificar a exploração e normalizar a desigualdade — e não para descrever as diferenças de forma neutra.
Ignorar essas restrições não as desfaz. Simplesmente permite que seus efeitos continuem sem controle.
A teórica política Hannah Arendtalertou que se recusar a nomear as estruturas de poder não nos torna neutros — nos torna cúmplices de sua persistência. E estudiosos contemporâneos como Ibram X. Kendinos lembram não haver posição neutraem um sistema desigual: o silêncio tende a favorecer o status quo.
Daltonismo e o mito da neutralidade
Muitas pessoas equiparam justiça a não ver cor, não rotular ou tratar todos da mesma forma. Embora bem-intencionadas, décadas de pesquisa evidenciam que a ideologia daltônica muitas vezes reforça a desigualdade em vez de dissolvê-la.
O psicólogoDerald Wing Suedemonstra como o “daltonismo” invalida as experiências vividas de racismo e manipula aqueles que denunciam os danos causados por ele.
Da mesma forma, a jurista Kimberlé Crenshaw, que cunhou o termo interseccionalidade, explica que os sistemas de opressão se sobrepõem e fingir que não os vemos torna impossível abordar como eles funcionam na realidade.
A justiça não vem da igualdade. Ela vem da equidade, respondendo de maneira diferente onde a história criou condições desiguais.
Por que é importante dar destaque às vozes do Sul Global e das pessoas negras, indígenas e racializadas (BIPOC)
A OGA e os projetos alinhados a ela concentram-se intencionalmente nas vozes do Sul Global, das comunidades diaspóricas, dos migrantes, dos refugiados e dos povos racializados. Isso é frequentemente interpretado erroneamente como exclusão.
Não é.
As perspectivas brancas, ocidentais e eurocêntricas já dominam:
- instituições acadêmicas
- publicações
- mídia
- ONGs
- padrões “profissionais”
- estruturas de liderança e financiamento
Como nos lembra a escritora bell hooks, a dominação funciona melhor quando se apresenta como normal, neutra ou universal.
Colocar as vozes marginalizadas no centro não significa reverter a hierarquia. Significa interrompê-la.
A filósofa Miranda Fricker chama isso de justiça epistêmica:, ou seja, corrigir o conhecimento reconhecido como confiável, no qual vozes marginalizadas são sistematicamente descartadas.
Proteção não é exclusão
As comunidades marginalizadas muitas vezes precisam de espaços onde não sejam obrigadas a:
- traduzir a sua dor
- justificar seus limites
- educar aqueles que têm mais poder
- absorver micro agressões constantes
Criar espaços protegidos é um ato de cuidado coletivo, não de hostilidade.
A estudiosa feminista negra Audre Lordeescreveu que cuidar de si não é autoindulgência, mas uma guerra política, especialmente para aqueles que vivem sob sistemas que os esgotam.
Limites não são muros. São membranas, permitindo que o alimento entre, enquanto limitam o dano.
Os sistemas não são pessoas, mas afetam as pessoas
Uma resposta comum às discussões sobre colonialismo ou supremacia branca é:
“As pessoas de hoje não devem ser culpadas pelos erros de seus antepassados.”
A OGA concorda.
Não culpamos os indivíduos pela história.
Mas insistimos em nomear sistemas cujos efeitos são contínuos.
Como explica o autor Ta-Nehisi Coates, a história não é apenas algo que aconteceu — é algo que se acumula. Riqueza, segurança, legitimidade e acesso são herdados de forma desigual.
Responsabilidade não é o mesmo que culpabilidade. Responsabilidade é sobre o que escolhemos agora, com base no que sabemos.
Língua, cultura e pressões de assimilação
Embora o trabalho da OGA inclua a justiça linguística, a questão é mais ampla: a assimilação como sobrevivência.
Os sistemas coloniais ensinaram às pessoas que a segurança e o sucesso vêm da proximidade com a branquitude: no sotaque, no comportamento, nas credenciais e no silêncio. Com o tempo, isso pode levar as pessoas a defenderem os mesmos espaços que as prejudicam, porque sair parece mais perigoso do que suportar.
O escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o descreve isso como a colonização da mente, quando a dominação remodela não apenas as instituições, mas também a autopercepção.
Desaprender isso não é fácil. O desconforto não significa dano. Às vezes, significa crescimento.
O que a OGA defende
O trabalho da OGA baseia-se em:
- dignidade acima da assimilação
- cuidado com a respeitabilidade
- reparação em vez de negação
- redistribuição de vozes ao invés de “neutralidade”
Não somos contra as pessoas.
Somos contra sistemas que silenciam, extraem e normalizam os danos inflingidos.
Acreditamos ser possível outra forma de relacionamento, baseada na escuta, na humildade e na responsabilidade coletiva.
Um convite final
Se as conversas sobre poder causam desconforto, isso não significa que sejam erradas. Muitas vezes, significa que elas estão tocando em algo real.
A OGA convida à reflexão, não à defensividade.
Ouvir, não apagar.
Cuidado, não culpa.
Porque ser “totalmente humano” é apenas o começo.
A justiça nos pede para irmos mais longe.








