Cleidiane Tremembé não ensina apenas matemática. Ela reposiciona o que significa aprender.
Professora indígena do povo Tremembé, sua prática parte de uma visão onde educação, território, memória e corpo são inseparáveis. O conhecimento não é algo que chega de fora. Ele nasce da relação viva entre comunidade, ancestralidade e cotidiano.
Educação indígena e matemática como saber vivo
Nos contextos indígenas, ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdo. É sustentar continuidade, fortalecer vínculo e garantir que o aprendizado faça sentido para a vida.
O trabalho de Cleidiane rompe a separação artificial entre saberes tradicionais e conhecimento científico. Contar, medir, organizar e observar padrões sempre fizeram parte da vida dos povos originários. A matemática já existia como prática antes de ser nomeada como disciplina.
Esse deslocamento questiona profundamente os modelos educacionais que historicamente hierarquizam saberes e silenciam epistemologias indígenas.
Território, cuidado e organização social
A atuação de Cleidianese conecta à transmissão de saberes que sustentam a vida coletiva, incluindo práticas ligadas à terra, à alimentação e ao cuidado.
Em muitas vivências do povo Tremembé, há uma forte presença de mulheres na condução da vida comunitária, na educação e na preservação dos saberes. Essa centralidade feminina influencia diretamente as formas de aprender e ensinar, e também o que é considerado conhecimento legítimo.
Uma presença em roda: encontro com a OGA e Indique
Na semana passada, Cleidiane participou de uma roda da OGA, co-organizada com a Indique, ao lado de outras iniciativas como o Instituto Aldeia Verde e o projeto Guardiãs do Bem-Viver.
Foi um espaço de escuta e troca entre mulheres de diferentes territórios, onde o conhecimento circulou como prática viva, não como conceito abstrato.
Esses encontros fazem parte de um movimento maior: ampliar vozes que historicamente foram colocadas na margem, mas que seguem sustentando outros modos de existir, educar e resistir.
Educação como resistência e transformação
Ensinar a partir do território é um ato político. Significa recusar modelos padronizados que desconsideram contexto, língua e cultura.
Cleidianenão está apenas “incluindo” sua comunidade em um sistema existente. Ela está ajudando a transformá-lo. Sua presença também amplia o campo de possibilidades para meninas e jovens indígenas em áreas como a matemática, onde a ausência de representatividade ainda é estrutural.
Por que isso importa para além dos povos indígenas
Quando a educação deixa de ser instrumento de assimilação e passa a ser espaço de afirmação, algo se reorganiza.
Não apenas para os povos indígenas, mas para qualquer sociedade que queira aprender de forma mais justa, plural e conectada com a vida.
OGA Vozes
OGA Vozes 🗣️ é uma iniciativa da OGA 🌿 dedicada a resgatar, escutar e amplificar saberes que historicamente foram colocados à margem dos sistemas formais de conhecimento.
Não se trata de “dar voz”, mas de reconhecer que essas vozes sempre existiram, sempre produziram conhecimento e sempre sustentaram formas de vida. O que foi negado, muitas vezes, foi o direito de circulação e reconhecimento.
A proposta é simples e exigente ao mesmo tempo: deslocar o centro.
E abrir espaço para epistemologias que já estão aqui, mas nem sempre são vistas como conhecimento.
Continuar amplificando vozes da margem
Este texto faz parte de uma série contínua da OGA Vozes dedicada a ampliar narrativas, práticas e saberes que sustentam outros futuros possíveis.
Como aprofundar e apoiar
- Acompanhar o trabalho de Cleidiane nas redes: @cleidianematematica no Instagram
- Escutar diretamente vozes indígenas, sem mediações excessivas
- Apoiar projetos educativos conduzidos por povos originários
- Incluir epistemologias indígenas em práticas educacionais e institucionais
- Reconhecer mulheres indígenas como produtoras de conhecimento, não apenas “fontes culturais”
Para refletir
- Quem define o que é conhecimento válido?
- O que sua educação te ensinou a ignorar?
- Que outros modos de aprender você ainda não encontrou?
Cleidiane, nossa gratidão por sustentar e compartilhar caminhos que ampliam o que entendemos por aprender e ensinar.








