A OGA Vozes é um ato de resistência. Este é um espaço de escuta e registro da OGA dedicado a enfrentar o silenciamento histórico e o apagamento das memórias. A OGA Vozes funciona como um canal onde o tempo da ancestralidade dita o ritmo das palavras, permitindo que as narrativas das mulheres indígenas, das anciãs e das comunidades tradicionais retomem seu lugar de direito no centro do debate. Aqui, a trajetória da nossa convidada Luza Borum Krenakdeixa de ser apenas uma lembrança para se tornar um manifesto vivo de dignidade, soberania feminina e justiça históricapara o Brasil profundo.
Origens e o Sagrado Rio Doce
Meu nome é Luza Borum Krenak, nascida no Vale do Rio Doce, Minas Gerais. Dia 7, número muito significativo para mim. No mês de janeiro de 1961. Fui criada às margens do Rio Doce. Rio encantado que abrigou, ao longo dos séculos, centenas, milhares de indígenas em suas águas. O Rio para nós indígenas é sagrado.
Formação e a Travessia para Rondônia
Na minha cidade, estudei.Fiz o Magistério. Depois fui para Governador Valadares, que abriga uma importante montanha chamada Ibituruna. Comecei a fazer Ciências Sociais na Universidade Santos Dumont. Fiz lá um curso do Projeto Rondon. Meu sonho era vir para o Xingu. Mas Tupã Nhanderume enviou para o estado de Rondônia no ano de 1986. Já estava casada, com dois filhos: Tainá (Filha do deus Tupã) e Ícaro (aquele que sonhava em voar). Sempre fui apaixonada. Aqui tive minha filha caçula: Taís, a que se contempla, se admira. Meus filhos me deram seis netos: Ana Clara, linda. Já foi Miss Rondônia. Amanda, maravilhosa, sonha em ser Miss também. Davi, Igor (Príncipe da Paz), Miguel e Rafael. Todos lindos, inteligentes, estudiosos. Aninha já vai iniciar o Curso de Medicina, no próximo ano, com 18 anos.
A Identidade e o Sangue da Terra
Uma cineasta daqui me convidou para fazer um documentário… Mas não deu certo! Sou indígena de alma, corpo e espírito! Fecho os olhos e me vejo tomando banho de cachoeira, nua… Com um cabelo imenso! Meus avós foram expulsos de suas terras no Vale do Rio Doce. Primeiro, foram para o garimpo (Lavras, conforme chamado em MG). Foi ali que meu pai (oriundo do município de Almenara, divisa de Minas com Bahia) conheceu minha mãe. Linda! A indígena mais bonita da região. Cabelo lindo, preto como o ébano. Rosto largo. Eles se casaram. Tiveram nove filhos. Sou a primogênita.
O Legado de Pimenta Malagueta
Fui batizada na Igreja Católica. Meu padrinho era o Capitão Montalvão, título adquirido por bravura, como era o sistema na época. Meu padrinho mandou buscar o meu pai na Bahia, onde vivia na época. Ele havia perdido os pais. Aos nove anos, saiu pelo mundão afora. Ele nasceu em 1908. Lampião nasceu em 1901. Iniciava-se a época do cangaço na Bahia. Lampião era uma pessoa maravilhosa. Infelizmente as mazelas da vida o transformaram em uma fera. Fera ferida! Mataram seus pais. Ele virou um vingador! Meu pai amava Lampião. E se espelhou nele. Outra época. Outro modo de viver. Também virou pistoleiro. Parecia um gato no meio do sertão da Bahia. Matou muitas pessoas. Era pequeno, o rosto vermelho. Seu apelido era Pimenta Malagueta.Nos jornais da Bahia antigos ainda têm as notícias: Antônio Rodrigues do Amaral invadiu tal festa, disparando mais de cem tiros. Era considerado também uma fera. Mas tinha um cordeiro dentro de si.
Assim como Lampião, eram bondosos. Não deixavam ninguém passar fome. A vida era difícil no sertão baiano. Meu pai, se tivesse duas camisas e visse alguém descamisado, doava a segunda. Era muito amoroso com as pessoas. Muito brincalhão também. Gostava muito de contar piadas. Meu padrinho Montalvão soube da sua valentia e mandou buscá-lo na Bahia para ser seu segurança. Foi escondido numa carroça que levava tomates para Minas Gerais. Ele era procurado pela polícia da Bahia. Quando chegou em Minas, foi direto para um lugar chamado Pedra Alta, próximo a São Geraldo do Baixio. Ficou três meses escondido lá. Depois desceu para São Geraldo do Baixio. Trocou de nome. Agora, era Antônio de Souza Amaral.
A Ancestralização de um Guerreiro
Era amado por todos em São Geraldo do Baixio. De lá foi para Galileia (Terra de Jesus, assim está no Hino da Cidade). Lá recomeçou a trabalhar no garimpo. Onde permaneceu até se reancestralizar aos 78 anos.Nunca ia ao hospital. Sempre tomou remédios naturais. Numa quarta-feira, chamou sua amiga Isaurinha, foi com ela ao cemitério e disse a ela: “Sexta-feira vou embora deste mundo. Não conte nada para a Fia. Diga para todos que não quero uma gota de lágrimas no meu velório. Estou feliz. Porque cumpri minha missão na Terra.” Isaurinha não falou nada para ninguém.
Na sexta-feira de manhã levantou, fez café, buscou pão na padaria. Depois foi para a lavra. Ficou a manhã com os garimpeiros. Fez almoço para eles, almoçou também. Voltou para casa e deitou. Não se levantou mais. Foi “apagando”! Até ir embora, de madrugada. Não quis ir para o hospital. Só cheguei lá na segunda-feira. Minha família toda rindo, brincando. Lembrando das palhaçadas dele. Meu pai era um palhaço maravilhoso. A única coisa que restou dele lá foi um banco na praça. E as memórias na mente das pessoas antigas.
O Abraço da Natureza
Ouvir sons suaves da natureza nos ajuda a relaxar… As cores variadas que vemos lá fora também têm superpoderes. Elas nos fazem sentir tranquilos. Quando estamos na natureza, conseguimos esquecer preocupações e curtir o momento. É como se a natureza nos desse um abraço que acalma nossa mente, nosso espírito, nossa alma.
A Jornada pelas Terras de Rondônia
Em 1986, aos 26 anos, atravessei o mapa com o coração cheio de coragem, dois filhos pelas mãos e o destino traçado para Mirante da Serra. Naquela época, o município era um pequeno broto no chão de Rondônia; não havia o conforto da água encanada nem o brilho da energia elétrica. Morávamos em uma casa de madeira de apenas dois cômodos, onde o sustento vinha do balde que subia do poço, lavando a alma com a simplicidade da terra. Chegamos em março, sob o signo do recomeço.
O Ofício de Ensinar e os Ciclos do Tempo
Vim com a promessa do giz e da lousa. Comecei como professora sob o regime CLT, mas os ventos da burocracia me testaram: fui demitida por não ser concursada. Não me deixei abater. Em 1988, prestei o concurso e, no ano seguinte, assumi meu lugar de direito como estatutária. Foram décadas dedicadas ao saber, uma era maravilhosa que se estendeu até minha aposentadoria, há cerca de três anos.
Nesse caminhar, a vida floresceu novamente e o ventre se fez casa para mais uma filha. Em 1996, os caminhos com meu marido se dividiram, e em 1998, a estrada me levou a Presidente Médici. Lá, vivi dez anos de plena luz. Em 2008, o nascimento da minha primeira neta trouxe um novo chamado, e mudei-me para AltaFloresta, onde trabalhei até o descanso merecido da aposentadoria, ajudando a moldar o futuro dos meus netos. Mais tarde, quando outro pequeno príncipe nasceu em Porto Velho, mudei-me para a capital.
Um Mapa de Afetos
Minha vida em Rondônia é um mapa desenhado pela convivência: doze anos em Mirante, dez em Presidente Médici, quinze em Alta Floresta e três anos agora em Porto Velho. Por onde passo, não deixo apenas pegadas, mas semeio amizades profundas. Sou feita de encontros; sou aquela que, quando volta, encontra sempre um abraço aberto e uma casa pronta para me acolher.
A Força da Vida e a Libertação
Era uma esposa totalmente dedicada à família. Quando me separei, me libertei! Meu casamento foi uma prisão maravilhosa! Porque eu amo a vida! Amo minha família, amo meu trabalho e amo Deus acima de tudo. Por isto sou muito feliz.
Ensinar é a mais nobre das missões. Fui muito feliz em todos os lugares em que vivi porque eu tenho paz dentro de mim e levo paz às pessoas com quem convivo. Só que nem tudo foram flores na minha vida. Sofri muito… Mas não quero falar de sofrimento. Quero falar só de alegria.
Militância: A Luta pela Terra e os Movimentos Sociais
No ano em que me separei do meu marido, o MST chegou em Rondônia. Outra fase maravilhosa da minha vida. Conheci pessoas fantásticas no MST. Aliei o Movimento Indígena à luta pela Terra. Uma luta justa. Deus não criou a terra para ficar concentrada nas mãos de uma minoria. Deus criou a Terra para que suas filhas e filhos tivessem vida digna.
Ao longo do tempo, conheci outras pessoas maravilhosas que me levaram para outros tipos de movimentos sociais: Movimento Negro e Movimento de Catadoras e Catadores, nos quais eu me engajei também. E dedico a eles todo o carinho e atenção.
O Legado e o Observatório de Cultura
Eu trouxe comigo uma “bagagem” dos meus ancestrais. Somada ao que aprendi aqui, se torna algo extraordinário. E eu ensino na contemporaneidade e preciso deixar este legado para o futuro. Estive por seis anos no Conselho Estadual de Política Cultural. Ao sair, resolvi criar o Observatório de Cultura Indígena em Rondônia. Através dele é que trabalho. Enquanto conselheira, eu elaborei vários projetos, voltados para a Cultura Indígena e Meio Ambiente. O que sobrou desta época foi um documentário realizado na Terra Indígena Rio Branco com o Povo Makurap.
Esta vivência com os Povos Originários de Rondônia foi espetacular, uma excelente troca de saberes e fazeres. Uma pessoa me marcou muito: Juraci Makurap, sabedora indígena com quem aprendi profundamente. Por incrível que pareça, cuidei dela em seu leito de morte usando remédios naturais; ela estava muito debilitada e acabou partindo por conta de uma leucemia.
O Chamado da Floresta
O chamado não vem à toa. Se decidir pelo sim, apenas venha com respeito, reverência e coração aberto.Precisamos atender ao chamado da Natureza, pois a cura vem de dentro para fora e de fora para dentro. Somos seres divinos, somos templo do Criador e não podemos permitir jamais que algo externo ataque este templo.
A floresta está ativa. Os encantados da floresta estão nos chamando para nos unirmos em sua proteção, cuidando das sementes, das árvores, dos rios e igarapés. Eu sou apenas uma mensageira do alto; Tupã Nhanderu fala através de mim para suas criaturas. Ouça quem quiser ouvir, e que os escolhidos por Tupã gravem isso em seus corações.
Sigo semeando, pois a natureza nos dá um abraço que acalma nossa mente, nosso espírito e nossa alma. Minha história não é sobre o que passou, é sobre o que permanece vivo e pulsante em cada semente que planto no agora.
Luza Borum Krenak, 65, é uma grande artesã e guardiã da cultura viva. Com mãos que traduzem a ancestralidade em arte, ela confecciona todo tipo de ferramentas tradicionais indígenas, de brincos e colares a cocares repletos de simbolismo. Suas criações são mais que adornos; são instrumentos de preservação e orgulho de um povo. Você pode acompanhar sua arte e trajetória em seu Instagram: @luzluzaluz.
Agradecemos profundamente à Luzapor confiar à OGA o tesouro de suas memórias. Ao acolher sua trajetória, reafirmamos nossa missão política e poética de honrar a voz das anciãs, das matriarcas indígenas, dos povos originários, ribeirinhos e de todos que sustentam a vida nestas terras através da resistência cultural. O relato de Luza é um lembrete de que o Brasil é território indígena e cada história preservada é uma vitória contra o esquecimento. Seguiremos como guardiões desta voz para o futuro ser escrito com protagonismo e verdade.
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