Atl2026

ATL 2026: O grito da terra que o mundo precisa ouvir

Entre 5 e 11 de abril de 2026, Brasília foi tomada. Não por tanques ou por políticos de gabinete, mas por mais de 7 mil vozes que nunca se calaram: os povos indígenas de todo o Brasil estiveram reunidos na 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), a maior mobilização indígena da América Latina.

Vieram de todos os biomas, de todos os estados, de cerca de 200 povos. Vieram com pintura de guerra, cocares, arcos e propostas. Não para pedir. Para exigir.

O tema deste ano é direto, e por isso mesmo assusta quem prefere o silêncio: Nosso Futuro Não Está à Venda: a Resposta Somos Nós.

Muita gente ainda chama o ATL de “evento de índio [sic] “. O termo é um erro colonial, mas ele existe na boca de quem despreza a luta. A gente não endossa. A gente registra e denuncia.


A pauta que não é só indígena. É de todo mundo.

Neste ATL de 2026, os povos indígenas entregaram ao Itamaraty um documento que deveria estar na boca de todo ministro, todo empresário, todo cidadão: as recomendações do movimento indígena brasileiro para um mapa do caminho global para além dos combustíveis fósseis.

Em outras palavras: os povos originários do Brasil estão propondo ao mundo como sair do petróleo, do gás e do carvão.

O documento, entregue por lideranças como Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), propõe três coisas:

  1. Fim imediato da abertura de novos campos de petróleo, gás e carvãoem todo o mundo.
  2. Criação de Zonas Livres de Combustíveis Fósseis (FFZs) começando pela Amazônia.
  3. Um acordo global vinculante para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.

E a chave de tudo está numa frase de Dinamam Tuxá:

“Não há transição energética justa sem a garantia dos nossos territórios. A demarcação e a proteção das Terras Indígenas são medidas concretas de enfrentamento à crise climática.”

A verdade que o mercado verde tenta esconder: sem terra demarcada, não há clima que se salve. Os povos indígenas protegem 80% da biodiversidade do planeta. Proteger seus territórios é a política climática mais eficiente que existe. Mais barata e mais justa do que qualquer compensação de carbono.


Nossas parceiras estiveram lá

A OGA não apoia essa luta de longe. Nossas parceiras e projetos irmãos estiveram no chão do ATL 2026, ocupando espaços, levando suas vozes e fortalecendo a articulação política.

A Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), liderada pela incansável Carlinha Yanomami, esteve presente com sua força ancestral. A AMYK é a voz organizada das mulheres yanomami do Amazonas, fundada para resistir às agressões e garantir a continuidade cultural dos povos yanomami. Guiada pelo espírito de Kumirayoma, a mulher espiritual que protege as mulheres e a floresta, a associação conduz projetos essenciais para garantir a autonomia de suas companheiras dentro de seus territórios.

Também marcou presença o Instituto Etnoambiental e Multicultural Aldeia Verde (IEMAV), uma organização enraizada na sabedoria ancestral e comprometida com a autonomia para os povos indígenas em todo o Brasil. O IEMAV atua na defesa dos biomas brasileiros e no fortalecimento ancestral em Abya Yala, o nome indígena para o continente americano.

A Claudia Franco, antropóloga e parceira da OGA, também esteve no acampamento. Ela é cofacilitadora do projeto “Guardiãs do Bem Viver” da AMYK, ao lado da presidenta Carlinha Yanomami. Foi Claudia quem registrou em vídeo a presença das mulheres Kayapó e do povo Tapirapé na marcha do ATL 2026 . Seu trabalho com a AMYK incluiu a produção de uma cartilha bilíngue (português e yanomami) que documenta a história e os saberes da associação, um arquivo vivo que afirma epistemologias indígenas e inscreve outras formas de existir, cuidar e narrar o mundo . Ali, o conhecimento não é extraído. É cultivado, compartilhado e protegido em rede.


O que mais está em jogo

Além da pauta climática internacional, o ATL 2026 reafirma o que sempre foi a espinha dorsal da luta indígena: a demarcação de terras.

Sem terra, não há língua. Sem língua, não há cultura. Sem cultura, não há povo.

Os ataques vêm de todos os lados. Do Legislativo, onde a bancada ruralista ocupa cerca de 40% das cadeiras. Do Executivo, que insiste em rever demarcações. Do Judiciário, que arrasta processos. E, mais recentemente, do avanço da exploração de petróleo na foz do Amazonas, que ameaça diretamente territórios indígenas.

Por isso o ATL existe. Por isso eles vêm de tão longe. A luta não é por privilégio. É por sobrevivência.


Por que a OGA apoia essa luta

A OGA é palavra guarani. Significa familia, casa. Não somos só uma plataforma. Somos um lar que acolhe a luta de quem está na base, de quem tem a terra como território e a memória como ferramenta.

Nossa marca, nosso ethos, nossa identidade visual criada pela artista indígena Juliana Gomes(Jaguatirika), do povo Laklãnõ/Xokleng, são uma afirmação diária: a ancestralidade é tecnologia. E a maior tecnologia que existe é a de se organizar, resistir e ocupar.

Apoiamos o ATL porque justiça climática e justiça territorial são a mesma coisa. Apoiamos a AMYK, o IEMAV, Carlinha Yanomami e Claudia Franco porque elas estão na linha de frente. E a OGA amplifica vozes indígenas. Sem pautar. Sem traduzir. Sem explicar demais.

Também apoiamos por meio de iniciativas como o Language for Justice (LFJ), que constrói pontes através das palavras para comunidades marginalizadas, e em parceria com o DEI Declassified, que expõe a distância entre discurso e prática na diversidade, equidade e inclusão.

Nosso projeto parceiro, o IEMAV, fortalece a autonomia indígena em Abya Yala, apoiando diretamente o movimento liderado pelos próprios povos originários.


O que você pode fazer agora

O ATL 2026 terminou em 11 de abril. Mas a luta não termina.

1. Compartilhe o documento das recomendações indígenas sobre combustíveis fósseis. Está no site da APIB.

2. Conheça e apoie o trabalho da AMYK e de Carlinha Yanomami.

3. Acompanhe e fortaleça o Instituto Aldeia Verde (IEMAV).

4. Entenda que terra demarcada é política climática. E que chamar alguém de “índio” é repetir um erro colonial de mais de 500 anos. São indígenas.

5. Amplifique vozes indígenas. Compartilhe este texto. Siga as lideranças. Repasse as pautas. Sem pautar. Sem traduzir. Sem explicar demais.

6. Engaje-se com a OGA. Conheça nossos projetos e causas. Contribua para que possamos seguir apoiando a luta de quem está na base.

O futuro não está à venda. A resposta, os povos indigenas já estão dando.

A OGA chega junto, em parceria. E você?


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