Este artigo faz parte da série OGA Vozes, que destaca ativistas cujas palavras e trabalho inspiram e fomentam a libertação coletiva.
Há escritores que observam o mundo e há aqueles que se lançam de cabeça em suas fissuras. Arundhati Roy pertence à segunda categoria. Ela é uma romancista de extraordinário talento literário, mas também uma das nossas vozes políticas mais destemidas, uma ativista que tem usado sua influência para confrontar o poder com a verdade com uma coragem que lhe custou caro.
Suas palavras se tornaram um mantra para movimentos em todo o mundo:
“Outro mundo não só é possível, como já está a caminho. Num dia tranquilo, consigo ouvi-la respirando.”
Essas linhas, escritas nos primeiros meses da pandemia da COVID-19, foram muito além do ensaio em que apareceram pela primeira vez. São compartilhadas como um poema, uma oração, uma promessa. Mas não surgiram em um momento de otimismo tranquilo. Foram forjadas na mente de uma ativista que passou décadas insistindo que o trabalho pela justiça não é nem abstrato nem distante, mas vivo, marcado pelo gênero e já presente entre nós.
Assista a Arundhati Roy lendo trechos de seu ensaio “A pandemia é um portal”
A ativista por trás das palavras
Para muitos, Arundhati Roy surgiu inicialmente como um cometa literário. Seu romance de 1997, O Deus das Pequenas Coisas, ganhou o Prêmio Booker e a transformou em uma figura literária de reconhecimento mundial. Mas Roy recusou o papel de uma escritora isolada do mundo. Em vez disso, ela mergulhou de cabeça nas lutas políticas mais controversas de sua época.
Nas décadas que se seguiram, ela se tornou uma das vozes políticas mais proeminentes — e mais perseguidas — da Índia. Em 2024, foi intimada a comparecer a julgamento nos termos da Lei de Prevenção de Atividades Ilegais da Índia por um discurso que proferiu em 2010 sobre a Caxemira. Ela enfrentou dezenas de processos criminais por causa desse discurso, incluindo acusações de sedição por suas críticas ao nacionalismo hindu. Foi ameaçada, silenciada e perseguida pelo Estado. E, mesmo assim, continuou a se manifestar.
Seu ativismo abrange algumas das lutas marcantes da nossa época: resistência à globalização corporativa, oposição à privatização da água e dos serviços públicos, solidariedade com as comunidades indígenas que lutam contra o deslocamento, crítica aberta à virada cada vez mais autoritária do Estado indiano e apoio inabalável à libertação palestina. Ela não trata essas questões como separadas. Para Roy, elas estão ligadas por um único fio condutor: a recusa em aceitar que as estruturas de poder existentes sejam o único mundo possível.
“A pandemia é um portal”
A famosa citação sobre outro mundo surgindo no horizonte vem de seu ensaio de 2020, “A pandemia é um portal”, publicado no Financial Times. Escrito em um momento de crise coletiva, o ensaio argumentava que a pandemia havia criado uma ruptura, uma quebra na ordem normal das coisas. Nessa ruptura, escreveu ela, enfrentamos uma escolha: voltar para o mesmo sistema falido ou avançar para algo novo.
Roy escreveu:
“Historicamente, as pandemias forçam os seres humanos a romper com o passado e a reimaginar o mundo. Esta não é diferente. É um portal, uma passagem entre um mundo e o outro.”
As linhas que se seguiram não foram um apelo ingênuo à esperança. Foram a declaração de uma ativista. Roy estava descrevendo o que já havia testemunhado: as redes de ajuda mútua que se formavam nas favelas, as comunidades que se recusavam a ser despejadas, os cuidadores que trabalhavam sem apoio do Estado, as pessoas comuns que construíam solidariedade onde os governos ofereciam apenas negligência.
Quando escreveu: “Outro mundo não só é possível, como já está a caminho”, ela não estava se referindo a uma utopia distante. Ela estava descrevendo o que tinha visto com seus próprios olhos. O novo mundo, segundo ela, não é um projeto. É uma presença. Já vive nos pequenos e persistentes atos de cuidado e resistência que acontecem diariamente, muitas vezes invisíveis.
Confrontando o poder com a verdade: o Festival de Cinema de Berlim
Em fevereiro de 2026, Roy demonstrou mais uma vez que seu ativismo não se limita às páginas dos livros. Programada para participar do Festival Internacional de Cinema de Berlim para apresentar uma versão restaurada de seu filme de 1989, In Which Annie Gives It Those Ones, um filme que não tem tradução para o português. E talvez nem precise ter. Mas quando o presidente do júri do festival respondeu a uma pergunta sobre Gaza dizendo que o cinema deveria “ficar fora de política”, Roy tomou uma decisão. Ela retirou-se do festival por completo.
Em uma declaração que rapidamente se espalhou pelo mundo, Roy escreveu:
“Ouvir alguém dizer que a arte não deve ser política é de cair o queixo. É uma forma de silenciar o debate sobre um crime contra a humanidade, mesmo enquanto ele se desenrola diante de nós em tempo real, quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para detê-lo.”
Ela não mediu palavras ao falar sobre o que acredita estar acontecendo em Gaza. “Deixem-me dizer isto claramente: o que aconteceu em Gaza, o que continua acontecendo, é um genocídio do povo palestino perpetrado pelo Estado de Israel”, escreveu ela. Acrescentou ainda que os governos que apoiam Israel, incluindo os Estados Unidos e a Alemanha, “tornam-se cúmplices desse crime”.
Notícias sobre a desistência de Arundhati Roy do Festival de Cinema de Berlim
A perspectiva de gênero no Novo Mundo
Por que “ela”? Por que outro mundo é representado como feminino?
A escolha de Roy é deliberada e política. O mundo do qual estamos tentando escapar, o mundo da extração, do militarismo, do patriarcado e da acumulação sem fim, há muito tempo é enquadrado em termos masculinos. É a linguagem da conquista, do poder “firme”, do domínio sobre a terra e o corpo. Ao atribuir um gênero feminino ao novo mundo, Roy aponta para uma tradição alternativa: uma tradição enraizada no cuidado, no poder relacional, na longa história da liderança das mulheres em movimentos pela justiça ambiental, pela paz e pela sobrevivência da comunidade.
Isso não é essencialismo. É uma reparação estratégica. Roy coloca o feminino no centro não para excluir, mas para nomear o que foi desvalorizado pelos sistemas que buscamos transformar. Cuidado, interdependência, escuta: isso não são fraquezas. São a arquitetura do novo mundo.
“Em um dia tranquilo, consigo ouvi-la respirar”
A última frase da famosa citação de Roy é talvez a mais radical. Ela nos convida a ficar em silêncio. Numa época de ruído constante, indignação performática e fluxo incessante de más notícias, Roy sugere que a tarefa de construir outro mundo inclui a tarefa de ouvir.
Ouvir a nova Terra respirar é reconhecer que isso não é um projeto futuro, mas uma realidade presente. Ela existe na horta comunitária que antes era um terreno baldio. Ela existe no vizinho que vai ver como está o morador idoso. Ela existe no fundo de solidariedade, no movimento de recuperação de solos, na oficina sobre a abolição das prisões, na greve, no protesto, na recusa silenciosa em aceitar a injustiça.
Para os ativistas que estão exaustos — e quem entre nós não está? — , esta frase oferece algo precioso. Ela diz: a casa pela qual vocês estão lutando não está esperando por vocês na linha de chegada. Está aqui. Ela está viva. Vocês não estão construindo esse mundo do zero. Vocês estão ajudando-a a respirar mais livremente.
Uma voz para os nossos tempos
O ativismo de Arundhati Roy não é algo separado de sua obra literária. Seus ensaios são atos de intervenção política. Seus discursos são atos de solidariedade. Sua disposição de enfrentar as consequências de suas palavras é um exemplo de coragem numa época em que tantas pessoas são intimidadas a permanecer em silêncio.
Na OGA, damos voz a quem se recusa a aceitar que o mundo tal como é deva permanecer tal como será. A voz de Roy está entre as mais importantes que temos. Ela nos lembra que um outro mundo não é uma fantasia. É algo vivo, com identidade de gênero e que respira, e que já está a caminho.
E em dias tranquilos, se prestarmos atenção, também poderemos ouvi-la.
Este artigo faz parte da série OGA Vozes. Para mais reflexões sobre os movimentos que estão construindo outro mundo, confira nossa cobertura contínua aqui.








