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2 Mais 2 É Igual a 5: Verdade, Poder e a Coragem de Questionar o Status Quo

“O Partido mandou que você rejeitasse o que seus olhos e ouvidos lhe mostravam. Essa foi a ordem final e mais importante deles.” George Orwell

Por:Anna Ferreira

Durante uma conversa recente, o Alfred Decker sugeriu que eu assistisse ao documentário de Raoul Peck de 2025 chamado Orwell: 2+2=5. Lançado com a total cooperação do Espólio de Orwell, o filme éuma lembrança visceral de que essa equação é uma arma política que representa o poder do Estado de reescrever a realidade.

Desde a retórica em torno de Netanyahu, Trump, Putin, Bolsonaro, Orbán, Kim Jong Un e Milei, por exemplo, até as sombras históricas de Hitler, Franco, Stalin, Mao Zedong, Pol Pot e outros, vemos uma erosão constante da verdade a serviço da arquitetura do poder.

Esse padrão é uma estratégia circular e global.Seja nos genocídios atuais na Palestina, no Sudão e no Iêmen, nas invasões e pressões neocoloniais na Venezuela ou nos ataques dos EUA e de Israel no Líbano e no Irã, entre outros, o mecanismo permanece o mesmo.

O império, o colonialismo e o militarismo usam mentiras para fabricar uma realidade que justifique a opressão.É a mesma lógica que esteve por trás da Declaração Balfour: a arrogância imperial de decidir o destino de terras e povos à distância.

Vivemos na encruzilhada de dois alertas distópicos. Orwell acreditava que o Estado se empenharia em ocultar a verdade, enquanto Aldous Huxley,em Admirável Mundo Novo, temia que a verdade simplesmente desaparecesse sob uma enxurrada de trivialidades. Huxley imaginou um futuro em que os fatos perdem todo o valor, soterrados pelo ruído e distrações intermináveis. Hoje, estamos sendo “distraidos até a morte” por uma avalanche de informações que torna quase impossível distinguir o que é real do que é simplesmente barulhento.

O documentário destaca como contribuímos para o nosso próprio silenciamento. Para evitar a dissonância cognitiva, muitas vezes nos alinhamos com o “nosso lado” sem questionar. Pesquisas sobre o Raciocínio de Proteção da Identidade e a Polarização de Atitudes Políticas revelam que somos programados para filtrar informações que desafiam nossa identidade de grupo.

Esse é o “truque” dos sistemas atuais: eles se aproveitam de nossas lealdades. A arquitetura do poder depende fortemente da criação deliberada de divisões.Ao manipular dicotomias e alimentar a hiperpolarização, a elite global — os interesses que controlam até mesmo o 1% mais rico — garante que nossa energia coletiva seja gasta em lutas entre nós mesmos. Essa estratégia de “dividir para reinar” é uma constante histórica, projetada para manter as pessoas marginalizadas distraídas e fragmentadas. Desde a agitação tática das tensões comunitárias pela administração colonial britânica até as modernas câmaras de eco digitais, o objetivo permanece o mesmo: impedir a possibilidade de uma frente unida.

Esses poderes compreendem que um movimento unificado é a única força capaz de expor seus mecanismos e desmantelar seu controle. Enquanto estivermos ocupades com as sombras de nossas diferenças, o inimigo comum permanecerá invisível e intocável.

Acredito que um dos pontos de partida nesse sentido seja a recusa em permitir que nossas evidências sejam apagadas. Tenho dado destaque intencional a pensadores das margens que falam a verdade a partir de suas experiências de vida: vozes como Audre Lorde, James Baldwin, Nego Bispo, bell hooks, Toni Morrison, Lélia Gonzalez, Davi Kopenawa, Ailton Krenak, etc. Em 2026, com a erosão ecológica e a crise climática se acelerando, essa clareza é essencial se quisermos salvar o planeta para as próximas gerações e ter uma chance de soberania.

No meu trabalho aqui na OGA e na Language for Justice, procuro dar mais visibilidade a essas vozes. Insistir que 2 mais 2 continua sendo 4 não é radical; é um ato necessário de resistência.

Em um mundo projetado para nos fazer duvidar de nossos próprios sentidos, o ato mais radical é permanecer firme nas evidências. Isso exige o árduo trabalho de revisitar nosso desconforto e questionar as “certezas” transmitidas por aqueles que detêm o poder. Não podemos nos dar ao luxo da segurança do silêncio enquanto a arquitetura do império fabrica uma realidade conveniente para justificar a opressão.

Insistir na clareza de nossa própria percepção é mais do que uma constatação; é uma declaração de soberania.É uma recusa em permitir que nossa história coletiva seja reescrita ou que nosso futuro comum seja sacrificado em nome dos interesses de poucos.

Devemos escolher ver, escolher ouvir e escolher falar, não apenas por nós mesmos, mas pela integridade das gerações futuras.

Algumas verdades não são apenas dignas de defesa; elas são o único alicerce sobre o qual um mundo justo pode realmente ser construído.

Obrigada, Alfred Decker, pela sugestão.

Solidariedade e Visão: A Arte de Gohar Dashti

Para ilustrar esses temas, decidi apresentar o trabalho da artista iraniana Gohar Dashti. Especificamente, a fotografia “Untitled #3” de sua série Stateless. Compartilho isso em homenagem e solidariedade ao povo do Irã e à profunda turbulência pela qual estão passando. A foto de Dashti é uma metáfora poderosa do “purgatório” do refugiado e da resiliência daqueles desenraizados pelo imperialismo e pelo autoritarismo.

Fundamentos desta investigação

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