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Acotirene de Palmares: matriarca, estrategista e a voz ancestral da liberdade

O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de Novembro, evoca imediatamente a figura lendária de Zumbi dos Palmares, o guerreiro que simboliza a resistência final contra a escravidão. No entanto, para a OGA, a Consciência é também um convite urgente para desenterrar as raízes e amplificar as Vozes que a história oficial brasileira tentou silenciar. É fundamental olharmos para a fundação do Quilombo dos Palmares e reconhecermos a matriarca, a estrategista e a líder espiritual que tornou a liberdade uma realidade: Acotirene de Palmares.

Acotirene não é apenas uma nota de rodapé; ela é o alicerce do primeiro grito de liberdade organizado no Brasil, e pode ser considerada, em termos práticos e de ação, a precursora do Feminismo Negro de nosso país, atuando entre o final do século XVI e o início do século XVII.


A força da liderança espiritual e o conceito de “Ogã”

Em uma sociedade colonial marcada pela tripla opressão – escravidão, racismo e patriarcado, Acotirene emergiu com uma autoridade incontestável. Descrita em relatos como a principal líder espiritual e política nos estágios iniciais do Quilombo dos Palmares, seu poder era a base de sustentação da comunidade, atuando por volta dos anos 1590 a 1630.

📌 OGA esclarece: o uso simbólico do termo “Ogã”

Historicamente, o Quilombo dos Palmares (c. 1590) antecede a consolidação formal de religiões de matriz africana como o Candomblé tal como o conhecemos hoje. Portanto, não podemos afirmar que Acotirene era uma Ogã no sentido rígido e moderno, onde o cargo de Ogã é tradicionalmente masculino.

No entanto, para a OGA, o termo “Ogã” serve como um poderoso símbolo conceitual para reconectar o público com a ideia de Voz, Poder e Guardiã. Utilizamos esta palavra para evocar o papel fundamental que Acotirene exerceu:

  1. Guardiã e Estrategista: Acotirene foi a guardiã da cultura e da organização social que permitiu a Palmares existir. Ela foi a estrategista e conselheira máxima, um papel de poder equivalente ao respeito concedido a um Ogã em sua comunidade.
  2. A Voz de Comando: Ela foi a Voz que não se dobrou, o tambor que chamava à resistência negra.

Acotirene, a Matriarca de Palmares, estabeleceu que a coerência cultural e religiosa africana seria a arma secreta contra o sistema colonial. Ela é a ancestralidade que garantiu que o poder feminino fosse central na fundação de nossa nação.


O feminismo decolonial de ação no século XVII

Acotirene demonstrou, décadas antes de qualquer teoria feminista ocidental ser formulada, que a libertação só seria completa se incluísse a autonomia e o poder da mulher.

Ela exerceu um Feminismo de Ação ao:

  • Romper Hierarquias: Assumir o comando político-espiritual, desafiando a estrutura de poder patriarcal imposta pelos colonizadores. Seu ato foi um desafio direto ao racismo estrutural.
  • Fundar um Matriarcado da Resistência: Ela não só resistiu, mas fundou uma linhagem de poder que incluiu Ganga Zumba e Zumbi. Isso evidencia que a liderança feminina negra era a força motriz na gênese de Palmares.

A necessidade de decolonializar nossas fontes

É comum que livros de história e correntes feministas clássicas tendam a olhar para o Norte Global como a única fonte de pensamento revolucionário. Assim, figuras como Olympe de Gouges (França, Séc. XVIII) ou Mary Wollstonecraft (Inglaterra, Séc. XVIII) são, de forma incontestável, aclamadas como as primeiras feministas.

Não se trata de diminuir sua importância, mas de reconhecer que essa narrativa é intrinsecamente eurocêntrica e ignora a complexidade do Sul Global. Enquanto as pensadoras brancas europeias escreviam sobre direitos civis e acesso à educação – pautas vitais para o seu contexto –, mulheres negras como Acotirene e Dandara estavam, mais de um século antes, lutando pela própria vida, pela liberdade do corpo, pela autonomia política e pela fundação de uma nova sociedade. A liberdade para Acotirene não era um conceito filosófico, mas uma realidade a ser construída com as próprias mãos.

O papel da OGA é, justamente, decolonializar essas fontes e essa perspectiva. Precisamos celebrar a intelectualidade e a ação de Acotirene como a nossa verdadeira precursora brasileira do feminismo, ensinando que o ato de lutar pela vida e pela comunidade sob o jugo da escravidão é a forma mais radical de ativismo feminino.


O capítulo final da história reescrita

Acotirene nos ensina que o processo de reescrever a história do Brasil não é apenas um exercício acadêmico, mas um ato político e espiritual. Ao celebrar a vida e o poder dessa matriarca, estamos curando uma ferida histórica que insiste em relegar a mulher negra ao silêncio.

O Brasil deve a Acotirene não só a fundação do mais duradouro e importante foco de resistência à escravidão nas Américas, mas a prova cabal de que a autonomia feminina negra foi o motor da liberdade. O 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, deve ser também o dia em que olhamos para a Serra da Barriga e reconhecemos: a luta por um Brasil livre começou com a Voz de uma mulher.

A Acotirene de Palmares é a prova de que a Voz da Mulher Negra não é uma descoberta moderna, mas sim a fundação da liberdade em nossa terra.


Adendo OGA: Amplie sua Consciência

O resgate de Acotirene é apenas o início. Para decolonializar verdadeiramente nossas fontes, é fundamental conhecer outras mulheres que foram pilares da resistência e tiveram suas vozes sistematicamente silenciadas pela história oficial.

Convidamos você a conhecer e celebrar também:

  • Dandara de Palmares: A guerreira e estrategista que lutou lado a lado com Zumbi, frequentemente reduzida a um papel secundário. (Link para Dandara de Palmares)
  • Luísa Mahin: A líder da Revolta dos Malês, que organizou planos de levantes escravizados na Bahia do século XIX. (Link para Luísa Mahin)
  • Aqualtune: Princesa congolesa e mãe de Ganga Zumba, que liderou milhares de guerreiros antes de ser capturada e, segundo a tradição, se tornar a líder de um dos mocambos de Palmares. (Link para Aqualtune)

A luta por nossa história é contínua. A OGAe todes devemos amplificar suas vozes para garantir que a memória dessas líderes nunca mais seja apagada.

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